Quem é pai ou mãe já conhece esse dilema faz tempo: os filhos estão viciados no uso de aparelhos como smartphones, games e afins.
Não adianta chamar para almoçar, fazer as atividades do colégio ou pedir um pouco de atenção para ter uma conversa. Parece que eles estão imersos em um universo paralelo muito mais interessante que o mundo real. A má notícia é que esse universo paralelo é mesmo mais interessante do que o “mundo real”.

O grande problema é que essa ultra-conectividade gera uma série de prejuízos na educação e no desenvolvimento das crianças e adolescentes “nativos digitais”: solidão, mentiras, baixa auto-estima, reclusão, monotemáticas, irritabilidade, desobediência, são apenas alguns sinais de que seu filho está viciado em tecnologia.
Alguns pais conseguem controlar um pouco essa conectividade exacerbada. Mas posso apostar que a maioria não tem esse controle, por diversos motivos. Aqui listo alguns deles.

Os pais acham natural essa “inteligência tecnológica” dos filhos

Bom, assim como nossos pais achavam a tarefa mais difícil do mundo programar horários de gravação no antigo video-cassete, nós também achamos difícil (e sem sentido) jogar minecraft, buscar pokémons nas ruas e usar o snapchat.
As novas gerações estão nascendo mais inteligentes e precoces no uso da tecnologia, certo?
ERRADO.
O que acontece hoje é que a molecada tem acesso a um mar de tecnologias e dispositivos de forma fácil e irrestrita. Os estímulos visuais e as interfaces totalmente intuitivas permitem que crianças de 2 anos saibam procurar imagens e ampliá-las no seu smartphone, além de outras tarefas.
Se nós, jurássicos tecnológicos, tivéssemos dispositivos conectados e interfaces intuitivas aos 2 anos, faríamos a mesma coisa que a molecada atual. Mas você brincava na rua e assistia Os Trapalhões aos domingos. Sua infância foi linda. Não fique triste.

Os pais também são viciados digitais

Será que você se encaixa nessa categoria? Ora, não é difícil. Aliás, a probabilidade é grande. Bem grande.
Você pode até discordar mas muitos pais também são viciados em tecnologias e dispositivos. Olhe ao seu redor e perceba quantas pessoas estão focadas nas telas dos seus respectivos aparelhos. Em qualquer lugar que você vá, dezenas, centenas, milhares de pessoas estão olhando para seus celulares (ao invés de seus filhos) com a cabeça inclinada para baixo, atestando sua reverência e submissão.
São viciados.
E os filhos repetem os gestos dos pais. Tal pai, tal filho.

É mais fácil delegar a educação para terceiros

Essa frase pode ser controversa mas o que vemos hoje são pais que precisam trabalhar o dia todo e não podem acompanhar os filhos quando não estão na escola. Por isso, precisam de apoio da própria escola, de diaristas e dos profissionais das diversas atividades (professora de ballet, de kumon, de judô, de tênis, de violão, de inglês, de mandarim, de origami, de desenho, etc), para educar seus filhos ao longo do dia.
Fazer tantas atividades diminui a culpa da ausência e arruma uma justificativa para a falsa impressão de estar dando o melhor para o seu filho. Mas está faltando alguma coisa, não está?

A tecnologia tira por instantes a obrigação de dar atenção aos filhos

Corroborando com o tópico anterior, como se não bastasse a quantidade de atividades que os guris são submetidos para se tornarem super-adultos, quando há uma oportunidade de interação os pais entregam um tablet ou o próprio smartphone com acesso ao youtube e assim conseguem quietude para falar nos grupos de whatsapp sem interrupções do filho.
A mensagem é: “Filho, eu não sou capaz (ou não quero) te dar atenção. Toma aqui esse dispositivo que é bem mais interessante do que eu e cala a boca”.

Os pais não sabem quão prejudicial pode ser o uso exagerado

Você já ouviu falar em dopamina, não é? Esse neurotransmissor, quando estimulado em excesso, causa dessensibilização dos receptores gerando a necessidade de maiores quantidades para obter o mesmo efeito.
Já entendeu, né?
Sim, vício. Exatamente igual ao uso de drogas.

E agora? Sem controle e sem saber o que fazer, como proceder quando os filhos estão plugados na matrix e não querem sair dela?
Para que não seja necessária uma intervenção de internamento, há alguns cuidados que podemos tomar preventivamente. Aliás, todos esses cuidados nós conhecemos, porque são óbvios. Mas é sempre bom lembrar pois a obviedade não parece ser tão óbvia assim pelo visto.

1. Faça atividades em lugares abertos

Praças, parques, praia. Há muitos lugares que você pode levar seus filhos para atividades ao ar livre. Andar de bicicleta, tomar um sorvete ou simplesmente andar e apreciar a paisagem.
Uma boa dica é chamar outras famílias para participar do passeio. Os pais conversam e os filhos brincam. Esse tipo de socialização é ótima para a construção da identidade de todos.

2. Estabeleça limites de uso e explique o porque

Deixar claro para as crianças que o uso demasiado pode prejudicar é importante. E por isso mesmo o tempo de uso tem que ser controlado. Claro que ela não vai entender no primeiro momento. Mas se você for sagaz, vai mostrar para ela que existe vida offline.
Não há, todavia, um tempo ideal de “abstinência”. Esse tempo pode ir aumentando gradualmente, para não causar uma interrupção brutal logo de começo.

3. Converse sobre os jogos, aplicativos e sites que eles frequentam

Procure saber por onde anda seu filho. Se ele assiste videos no youtube, assista alguns com ele. Além de importante para a interação, tenho certeza que você também vai aprender coisas bacanas ou saber que seu filho não está aprendendo nada que preste.
Demonstre interesse em aprender a jogar, a usar os aplicativos. Fique de olho. O que não é medido não pode ser gerenciado.

4. Demonstre a importância de estar presente

Não há nada mais deselegante do que estar na presença de outras pessoas e demonstrar que sua atenção está no celular. Além de falta de respeito, uma baita falta de educação.
Então, deixe claro que há momentos de interação real e que devem ser respeitados com a atenção voltada para esses momentos.

5. Use a tecnologia para aprender

A tecnologia é uma faca de dois gumes. Você pode usá-la para cortar um bolo ou furar uma barriga. Há um mundo de coisas interessantes que a tecnologia proporciona. Aliás, esse é o objetivo principal dela. Sites, videos, audios…milhares e milhares de coisas para fazer e aprender. Por que não fazer então? Mostre isso ao seu filho. Dê o exemplo. A internet está recheada de conteúdos educativos. Faça com que ele desassocie o termo “educativo” de “chato”.

6. Conecte-se ao que realmente importa

Os momentos que passamos juntos, compartilhando experiências e vivendo em harmonia são as conexões que nos dão um propósito à vida. Negamos, conscientemente ou inconscientemente nossa condição de finitude e às vezes não damos a atenção merecida para as coisas que realmente importam. Pense nisso. Os filhos crescem, terão outras prioridades, viverão suas próprias vidas. Aproveite todos os momentos que você pode ao lado deles e faça com que eles entendam isso o quanto antes.
Serão adultos equilibrados, com certeza.

7. Use o gamefication a seu favor

Sugira atividades offline e utilize o sistema de ranking para estimular a competitividade fora do mundo conectado. As estratégias de recompensas utilizadas nos jogos são uma boa pedida para conseguir a atenção e fazer com que seu filho tenha interesses fora da Matrix.

8. Dispositivos caros

Evite presentear seus filhos com os últimos lançamentos de dispositivos e games. Eu sei que é extremamente complicado porque, além de ficar defasado em relação aos amigos, seu filho vai querer estar atualizado com os jogos mais recentes ou com o celular da moda. Conheço pais que compram os smartphones mais novos (e caros) para os filhos. Bacana. O problema é que o filho tem 8 anos e já perdeu vários smartphones desses.
Além de não precisar de um aparelho com tantos recursos e tão caro, o filho não vai dar o devido valor, já que tem tudo disponível de forma fácil.

Todas essas dicas, obviamente, são para casos em que os pais percebem que já existe um exagero de uso dos dispositivos conectados na internet. Porém, nada substitui a atenção e o diagnóstico de um profissional que fará uma avaliação muito mais precisa do nível que seu filho apresenta de dependência.

Mesmo que você acredite que pode mudar a situação, consulte um psicólogo, fale com os professores, pergunte a outros pais.
Todo caso é tratável. Basta começar e contar com ajuda de pessoas e profissionais gabaritados para essa tarefa.
A saúde mental e física de seu filho vale o esforço.

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