Outro dia estava acompanhando uma discussão num grupo de WhatsApp de professores da instituição que leciono e o assunto “metodologias ativas de aprendizado” chamou bastante a minha atenção. Muitos declararam usar as metodologias como parte da estratégia para mendigar a atenção dos alunos, o que é bastante difícil atualmente.

Quero deixar claro, de início, que essas “metodologias ativas” são importantíssimas e eu faço uso para mendigar a mesma atenção.

Todavia, acredito que essa estratégia e uso é fundamentada apenas no ataque às consequências dessa “atenção parcial constante” dos alunos. Malabarismos tecnológicos, uso de plataformas digitais, recursos interativos são muito efetivos quando encontramos uma motivação intrínseca do interlocutor para aprender. E talvez esteja aí o grande entrave na educação. E essa falta de motivação – ou consciência se preferir – é uma barreira intransponível para o professor.

Você pode tornar qualquer assunto, qualquer narrativa, a mais interessante do mundo. Mas para quem não está motivado, esses artifícios são apenas…artifícios.

Já diz o ditado: “Você pode levar um cavalo até o rio. Mas não pode forçá-lo a beber água.”

Creio que há uma série de motivos para os “desmotivos”:

Seleção de curso sem maturidade

Não do curso. Mas do selecionador.

Boa parte dos meus alunos – e digo isso com muita dor – estão frequentando um curso que eles escolheram não por determinação ou reconhecimento do potencial. Estão ali por diversos motivos que não justificam o investimento. De tempo e dinheiro.

São alunos que, na pouca idade e consequente falta de maturidade, escolheram o curso por desejo dos pais, por necessidade de ter um curso superior, para mudar de área sem saber exatamente como é essa nova área, por achar que precisam passar por esse sacrifício, porque caíram ali de paraquedas, porque era um curso mais fácil de passar no vestibular ou qualquer outro motivo que nem mesmo eles sabem explicar.

Eu não estou relatando isso de forma empírica. Todos esses motivos são relatos que venho colhendo ao longo de alguns anos perguntando na minha primeira aula com as turmas “o que você está fazendo aqui?”.

Tive o azar – pois não tenho as estatísticas de outros professores – de sempre ter mais de 70% da turma, aproximadamente, sem saber responder. Não é responder qualquer coisa. É não saber responder. Dar de ombros, entende?

Outros atrativos / distrações da vida

Ora, o final da adolescência é um mar de descobertas e oportunidades que são interessantíssimas para quem tem bastante energia e está passando por uma transição significativa. Festas, raves, drogas, sexo, mais sexo, curtição, bebida, pseudo-liberdades…tudo isso supervisionado pela aprovação dos pais e admiração dos pares. Estou generalizando, óbvio.

A vida apresenta tantas coisas, de forma tão atrativa, que é difícil resistir.

Trocamos 5 dias da semana por 2 do final de semana. A segunda-feira é o inferno para os alunos, que já começam a contagem regressiva para a sexta. Não é à toa que minhas aulas de segunda pela manhã e sexta de noite são sempre uma incógnita em relação à presença. E, segundo os próprios alunos, eles gostam de minhas aulas.

Essa semana tivemos o feriado da sexta-feira santa. O pessoal começou a faltar…desde a segunda anterior. Não estou brincando e nem exagerando.

Predisposição para ficar na zona de conforto

Blá blá blá de auto-ajuda, né? É.

Mas é uma verdade. A gente nunca quer sair da zona de conforto. É confortável lá (tum-dum-tsss). Tudo que nos faz gastar energia, ter esforço, ter movimento, a gente (o cérebro na verdade) tende a evitar. Mas sem esse movimento, a gente não desenvolve, não aprende, não caminha.

O que estou querendo dizer é que é difícil sair da zona de conforto. Mas é fundamental. Até porque, depois de um tempo, aquele movimento que você fez vira um hábito se você for persistente. E, a depender do hábito, vira zona de conforto de novo.

Pais superprotetores

Reclamam pra caramba. Mas no final das contas, continuam protegendo demais os filhos. Eles não querem que os filhos tenham que passar pelo que eles passaram. Tiveram que se esforçar, trabalhar, dar duro, se virar e amadurecer cedo para tocar a vida. Por que não facilitar a vida de seu filho?

A pergunta é: ele vai ter uma vida melhor se não tiver frustrações e dificuldades? Não estou dizendo aqui que é para colocar um “pré-adolescente” de 18 anos pra fora de casa. Mas a forma como você entrega determinados valores para ele vai fazer diferença lá na frente.

Tô falando isso por experiência própria. De filho e de pai.

A necessidade e a dor são os catalisadores de movimento na vida

Repare.

É depois de uma porrada que você toma atitude. É depois de uma morte que você se arrepende de não ter dado a atenção que gostaria. É depois de um prejuízo que você fica mais esperto. É depois de um pé na bunda que avalia melhor a próxima escolha e vai com mais cautela.

É amadurecer. É aprender com a dor.

Eu nem sei se digo “infelizmente” ou “felizmente”. Mas é assim que os alunos aprendem. Mais uma vez estou generalizando. Porém, de novo, quando tenho a oportunidade de conversar com ex-alunos anos depois, sempre ouço a mesma coisa: “professor, aquilo que você falava na sala eu só fui lembrar depois que __________ aconteceu”. Preencha a lacuna com diversos tipos de problemas e desastres.

Eu não sou Nostradamus. Eu não sou o dono e conhecedor da verdade.

Mas eu vi isso acontecer comigo e com muita gente ao meu redor. Só se aprende na porrada. Pelo menos nas primeiras vezes. Depois você cria uma casca grossa e um jogo de cintura que evita problemas por ingenuidade.

Estruturação da educação de forma medieval

Ora, não vamos crucificar apenas os alunos. Boa parte dessa “desatenção” é porque não há nada para que chame a atenção mesmo.

Ainda temos salas de aula com disposição das cadeiras reproduzindo uma igreja medieval. O padre vomitando os versículos da profissão e a comunidade fiel ouvindo, anotando e tomando toda a liturgia como verdade absoluta. O guri sai do ensino médio na expectativa que a faculdade vai ser um mundo novo maravilhoso, cheio de descobertas e pessoas sensacionais. Quando chega lá, descobre que ainda está no ensino médio. Não mudou nada.

Além disso, ementas natimortas. Cursos natimortos. Professores interessados no contra-cheque e sem nenhum grau de envolvimento e preocupação com o aprendizado. Coordenadores idem.

“Pô bicho, generalizando de novo?”

De novo. Nem todo mundo é assim. Conheço alguns professores e coordenadores completamente diferente disso. Mas as estatísticas não mentem.

As metodologias ativas de aprendizado são fundamentais para quebrar essa realidade e inserir um novo modelo de pensamento sobre educação. Como disse anteriormente, sou completamente apoiador. Mas ela não pode ser apenas uma ferramenta para atacar as consequências no processo de aprendizado. Ou as inconsequências. Elas precisam trabalhar junto com outras preocupações, ferramentas e estudos aprofundados sobre aspectos culturais de cada aluno.

Há deficiências que um grupo da turma no WhatsApp ou uma aula onde os alunos preenchem um canvas não resolvem. Eles vão fazer para se livrar da tarefa. Experimente perguntar na aula seguinte o que eles fizeram. Separadamente. E veja as estatísticas.

A educação deve evoluir não só por causa dos nativos digitais. Mas também porque já passou da hora num mundo hiperconectado ter mudanças na forma como encaramos a educação de seres humanos. Não é culpa da tecnologia. É culpa do modelo. Da cultura. E, como já disse antes em algum card de Instagram: a cultura pode mudar. Nesse caso, deve mudar. É mudar o mindset.

Mas eu sei que falar é fácil.

Daqui a alguns poucos anos, muitas profissões irão desaparecer. Muitas outras irão surgir e não haverá mais espaço para grandes jornadas de 4 ou 5 anos para que um profissional esteja preparado para o mercado (salvo raras exceções). Isso falando de graduação somente.

As certificações técnicas por habilidade serão muito mais procuradas pelos alunos como também pelo mercado. A gente (eu sou um cara de mercado que dá aulas para fazer o link entre o mercado e a academia) precisa de profissionais que entreguem, aprendam, se desenvolvam. Eu, por exemplo, não tenho interesse nenhum em saber que um candidato frequentou as aulas de determinada instituição e hoje tem graduação em X. Prefiro muito mais ver um portfolio – mesmo fictício, diga-se de passagem – e conversar para entender qual a expectativa dele e de que forma ele pode contribuir para a empresa e vice-versa.

Eu quero ver a motivação nos meus alunos. Eu quero ver eles entrando em sala, nos laboratórios, mesmo quando não há obrigação de trabalhos ou professores para supervisionar e busquem o aprendizado. Que priorizem o próprio desenvolvimento. Que usem todos os aparatos tecnológicos como ferramentas para também aprender e não somente se entreter. Que despertem a própria força. Com sabre de luz na mão.

Que usem a nós, professores e profissionais do mercado, como facilitadores de caminho, como placas, como exemplos do que fazer e do que não fazer. Aprendam com os nossos acertos e principalmente com os nosso erros.

Agora me digam, amigos: eu dei azar nas turmas que eu peguei ao longo dos mais de 15 anos lecionando ou vocês também enxergam isso?

Eu queria escrever mais.

Mas vou parar por aqui porque textos longos demais não são lidos.