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Todo início de aula nesse semestre eu disponibilizo para que, em 10 minutos, algum aluno fale sobre um tema que ele mesmo escolhe. Não há nenhum tipo de restrição sobre esse tema. Pode falar sobre o que quiser.

Eu chamei essa prática de “Micro Talks”, uma óbvia referência ao famoso e gigantesco Ted Talks. Mas o objetivo aqui é fazer com que os futuros publicitários falem na frente de uma audiência, mesmo que essa audiência seja de pessoas com quem eles convivem diariamente. Isso faz com que eles destravem um pouco e comecem a praticar a oratória, a concatenação de ideias, postura diante de uma apresentação e percam um pouco da timidez.

Alguns alunos preparam suas apresentações antes para não serem pegos de surpresa. Outros, são escolhidos na hora, sem tema definido, sem preparação, sem nada. O mais puro sabor do improviso. Jazz na veia.
Os resultados tem sido bem interessantes. Muitas histórias de superação e muita gente madura para a idade, contrariando minhas expectativas em alguns casos.

Ontem foi mais um dia de aula e, consequentemente, mais um dia de Micro Talks.

O aluno em questão, assim como 90% dos que se apresentam de forma improvisada, relatou sua trajetória até o curso de publicidade. O foco é sempre do passado até o presente. Porém, esse especificamente, relatou que gostaria de ir trabalhar na área em outra cidade. São Paulo, para ser mais preciso.

De acordo com ele, lá há a possibilidade de uma carreira de sucesso e grandes oportunidades.
Eu não discordo do que ele falou, porém, uma coisa me chamou a atenção em seu discurso e também a atenção de outros colegas. Segundo ele, ao conseguir entrar no mercado de publicidade de São Paulo, finalmente conseguiria trabalhar com “sangue no olho”. Ora…somente quando estiver em São Paulo você terá sangue no olho para trabalhar?

Esse aluno mora em uma cidade próxima à Salvador e, segundo ele, ainda é uma “roça”. Bom, não vou entrar no mérito da conceituação de roça mas digo que, pelas estatísticas e experiências de outros alunos que também moram lá, não é tão “roça” assim. A cidade vem crescendo e há sim novas oportunidades para desempenhar a profissão de publicitário lá. Aliás, pelo fato de ser uma cidade pequena, se compararmos com Salvador, há uma grande possibilidade de ter um campo enorme de oportunidades para que as empresas que estão estabelecidas lá.

Tenho certeza que há muitas delas querendo fazer um trabalho bacana mas não tem conhecimento técnico e nem contato com profissionais que podem ajudá-las nisso.

É aí que entra o “sangue no olho”.

Sei que é bem difícil da gente enxergar nosso contexto quando a gente está dentro dele e não tem outra referência para fazer a comparação.
Por isso a minha sugestão foi que ele fosse até São Paulo nas férias da faculdade, tentasse arrumar algum estágio de 2 ou 3 meses e depois voltasse. Se ele conseguisse um emprego lá, ótimo. Se não, voltava e começava a trabalhar na própria cidade. Tem espaço pra isso. Tem gente e empresas precisando. Mas tem que procurar para saber. Tem que descobrir ou fazer essas oportunidades acontecerem.

Trabalhar com publicidade em cidades “pequenas” é complicado sim. Assim como é também em cidades grandes, onde tem uma concorrência grande, com profissionais e estudantes bem capacitados. Porém, a probabilidade de ter pessoas que são passivas é também bastante grande. Assim como nas pequenas cidades.

Mas se ele for um estudante que procura se capacitar de forma ativa e não espera que a magia do ensino medieval introduza a sapiência em sua mente, a coisa muda de figura. São nas experiências adquiridas na dificuldade (de verba, de conhecimento, de boa vontade, de estrutura) que o profissional aprende e desenvolve de verdade. Tal qual a faculdade. É o momento exato para se desenvolver, mudar o mindset e aprender bastante.

É guerra. E na guerra, muita gente morreu tentando mirar perfeitamente no alvo.

Meu conselho foi que ele traçasse a estratégia. Se São Paulo for realmente algo que ele almeja como local de moradia e trabalho, que se programe e comece a operacionalizar para que isso aconteça em breve.

Enquanto isso, adquira a experiência aqui.
Corra atrás de clientes aqui.
Desenvolva suas habilidades aqui.
Agora.

Num mundo hiper-conectado, não cabe mais a idealização do profissional da província e da metrópole. A internet derrubou essas barreiras.
Quem pensa ainda dessa forma, reavalie.
Porque ao invés de sangue, podem escorrer lágrimas.

Inclusive nos olhos dos publicitários.

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